As palavras sempre me fascinaram. Mas o som delas é um completo mistério para mim.
Por exemplo, a palavra "chocolate". Nada contra o que ela representa. Não que eu seja uma chocólatra também, mas ele me faz bem nos momentos de aperto e naqueles críticos dias que ocorrem uma vez por mês.
Mas dizer chocolate...não sei. Não soa um pouquinho arrogante? Não soa como uma palavra proferida por aquele chato que quer dizer que entende de tudo, mas na verdade é um alienado?
- O que você achou do desempenho do setor este semestre?
- Chocolate.
- Que vinho delicioso...muito achocolatado, eu diria.
Ou então, a palavra catatau. Essa serve quase perfeitamente para comunicar a ideia que deveria passar. Quase. Acho que esse monte de "a" denota um certo exagero, mas poderia ser exagero de qualquer coisa, não só de quantidade.
- Aquela mulher se separou do marido.
- Por quê?
- Ele batia muito nela...toda noite dava um catatau na pobre coitada.
Além de tudo, se você tentar pensar na raiz da palavra, ela soa como algo indígena. Algo como o nome de um lugar específico na aldeia. As mulheres engravidavam, esperavam nove luas, depois iam para o catatau e lá sofriam as dores do parto. E de lá não seriam permitidas sair por três dias e três noites, agradecendo a Tupã.
Tem umas palavras que são simplesmente muito simpáticas. Às vezes, elas querem dizer coisas simpáticas. Como "cambalhota". A cambalhota é uma molecagem, é feita pra ser inusitada. É coisa de palhaço em circo. É seu amigo pateta que não consegue parar de falar merda um minuto.
- Qual o nome daquele engraçadinho que tava na nossa mesa aquele dia?
- Cambalhota.
Enfim, eu poderia citar uma infinidade de palavras estranhas aqui. Mas prefiro ouvir. Ou melhor, ler.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
sobre Salvador.

O Pelourinho é uma Lapa de morros. As praias são mais baianas, mais preguiçosas. Os baianos têm uma malandragem gigantesca, e muitíssimo mais velada e mais charmosa que a dos cariocas.
A negra mais linda do mundo trabalha numa loja de roupas e miçangas do Pelourinho. Ela usa os cabelos muito, muito pra cima, com uma flor bem no meio, e roupas coloridíssimas, de tomara-que-caia. Ela sorri quando dizemos que somos cariocas:
-Eu trabalhei na sua terra. Morava em Jacarepaguá. Fiquei seis meses lá. Mas aí me deu uma saudaaaaade, uma preguiiiiiiça... - ela joga a cabeça cabeluda pro lado e fecha os olhos. Será que os baianos sabem que eles têm essa...essa baianidade? Será que eles fazem de propósito? Céus.
Somos do Rio, mas também somos branquelas. Tem baiano que chega tentando falar inglês e oferecendo coisas pra gente, e fingimos que não entendemos nada. Para todos os efeitos, somos gringas. Mas quando eles percebem que somos brazucas, ninguém segura. Eles vêm com a fitinha do Senhor do Bonfim, amarrando no nosso braço:
-É presente da Bahia. Não precisa pagar nada não, moça, você é muito bonita, muito simpática. Agora, olhar esse colar de Oxum. Olha o Arlequim, olha a figueira. Eu faço por 10 reais porque gostei de você.
E quando você nega:
-Cinco porque é baixa temporada. Três, moça, preço especial só pra você. Leva dois por cinco, moça, leva.
Alguns falam da cidade com palavras surpreendentemente articuladas. E é engraçado, porque acho que nenhum outro estado se refere tanto ao estado, e não à cidade. Ninguém é de tal cidade. Todos são baianos. Todos gostam da Bahia e do carnaval. E é claro que ninguém gosta de trabalhar.
Aliás, tô ficando com preguiça de continuar escrevendo.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Ela

Os olhinhos escuros e melancólicos dela estão olhando para o mar lá embaixo. A maresia sopra as roupas penduradas no varal que a mãe dela acabou de lavar. O cheiro de comida vindo da minúscula cozinha é forte e tentador. Eu pergunto:
-No que você está pensando?
-Se o meu irmão vem almoçar.
Ninguém sabe quem é o pai do irmão dela. Hoje é domingo e ele costuma vir almoçar com a família. A menina mal sibila as palavras, mas alguma coisa já a avisa da fragilidade dessa vida. Eu não me lembro de ter preocupações até ontem e ela se preocupa com o irmão.
A mãe deve ter uns dez anos a mais do que eu. Poderia ser minha amiga. É o que ela se considera, eu acho, a julgar pelo branco dos dentes que ela me mostra quando nos chama para entrar.
Eu nunca tinha vindo à favela antes. São caminhos apertados e tortuosos que nos levam a barracos que, às vezes eu penso, o vento há de soprar. Ou a chuva, de levar. Ou a terra, de comer.
Não faço a menor ideia de quem construiu aquelas escadas mal feitas. Só sei que elas se confundem, se cruzam, e não param mais até lá no alto do morro.
É claro que foi avisado que eu viria aqui. Muito playboy vem comprar droga e nada sofre. A menos que ele dê o azar de subir no meio de algum "confronto político".
Mas eu não vim comprar droga. Eu vim visitar a minha lindinha. E ela se aninha nos meus braços enquanto a mãe reclama do preço do leite.
- Tia - resmunga, levantando as duas jabuticabinhas para me encarar -, eu quero morar no asfalto com você.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
os velhos
Não sei por que as pessoas subestimam as memórias deles.
Se houvesse um pouco mais de paciência - e se ignorássemos os fatos de eles serem repetitivos, confusos, e de às vezes passar do ponto e falarem mais da sua vida do que seria conveniente ouvirmos - poderíamos descobrir um mundo de possibilidades. Eu poderia escrever um livro só com as memórias que já escutei.
Não que eu seja a Madre Teresa de Calcutá, que fique escutando aqueles que se sentem sozinhos. Mas é fascinante ouvir a minha avó falar de quando pegava o bonde - o bonde! - e atravessava a cidade do Rio de Janeiro para ir a bailes. Do tempo em que se usava broche. Do tempo em que se usava laço. Do tempo em que se podia usar joias.
Minha avó, com quem eu muitíssimo me pareço e a quem sou muitíssimo apegada, gosta de histórias. Ela poderia morar numa biblioteca. E ela amou um homem a vida inteira - que também a amou. Me lembra Diário de uma Paixão, com algumas exceções, claro. Ninguém escondeu as cartas dele e não deu tempo de um dos dois ficar pinel. Meu avô se foi cedo demais, e completamente lúcido.
Eles têm uma vantagem sobre nós: o grande triunfo do tempo. Uma prova? Leite derramado não é bom só por ser do Chico. É um dos livros mais sensíveis que já li.
Se houvesse um pouco mais de paciência - e se ignorássemos os fatos de eles serem repetitivos, confusos, e de às vezes passar do ponto e falarem mais da sua vida do que seria conveniente ouvirmos - poderíamos descobrir um mundo de possibilidades. Eu poderia escrever um livro só com as memórias que já escutei.
Não que eu seja a Madre Teresa de Calcutá, que fique escutando aqueles que se sentem sozinhos. Mas é fascinante ouvir a minha avó falar de quando pegava o bonde - o bonde! - e atravessava a cidade do Rio de Janeiro para ir a bailes. Do tempo em que se usava broche. Do tempo em que se usava laço. Do tempo em que se podia usar joias.
Minha avó, com quem eu muitíssimo me pareço e a quem sou muitíssimo apegada, gosta de histórias. Ela poderia morar numa biblioteca. E ela amou um homem a vida inteira - que também a amou. Me lembra Diário de uma Paixão, com algumas exceções, claro. Ninguém escondeu as cartas dele e não deu tempo de um dos dois ficar pinel. Meu avô se foi cedo demais, e completamente lúcido.
Eles têm uma vantagem sobre nós: o grande triunfo do tempo. Uma prova? Leite derramado não é bom só por ser do Chico. É um dos livros mais sensíveis que já li.
Quem passou pelo que nem sonhamos passar, assistiu a um desfile de anos e anos à sua frente e dedicou a sua vida inteira a alguma coisa, fosse a uma outra pessoa, como no caso de minha adorada vovozinha, fosse a algum trabalho, fosse à família, tem moral para falar o que quiser de mim. Tem moral para me dar conselhos. E merece, por mais confuso que esteja, todo o respeito e carinho dos mais novos.
sábado, 2 de maio de 2009
sobre a literatura.
atravesse todos os obstáculos que você possa atravessar, reúna algum dinheiro e vá estudar no exterior.
faça alguma coisa além para ser além desses apaixonados por livros que você vê por aí, fracassados que ficam de bar em bar falando de digressões ao invés de manter o foco em algum objetivo.
conquiste respeito e uma cadeira, seja a cadeira onde for.
siga aquele que é seu instinto junto com o amor; porque você coloca os livros, as letras e as palavras na mesma prateleira onde você coloca as poucas pessoas nesse mundo inteiro que você mais ama.
os seus pais, a sua irmã, a sua avó, a sua madrinha, meia dúzia de amigos e os livros que você passaria o resto da vida lendo. uma prateleira só onde estaria tudo pelo que você vive.
coisas pelas quais você reúne um amor irracional do qual não espera retorno nenhum. e pelas quais você continuará loucamente apaixonada até seu último suspiro.
Ufa!, parafraseando a Vírgula querida.
*e por favor não vire uma intelectual chata de óculos quadrados e pretos bebendo demais em algum café em Paris. isso é clichê demais pra você.
faça alguma coisa além para ser além desses apaixonados por livros que você vê por aí, fracassados que ficam de bar em bar falando de digressões ao invés de manter o foco em algum objetivo.
conquiste respeito e uma cadeira, seja a cadeira onde for.
siga aquele que é seu instinto junto com o amor; porque você coloca os livros, as letras e as palavras na mesma prateleira onde você coloca as poucas pessoas nesse mundo inteiro que você mais ama.
os seus pais, a sua irmã, a sua avó, a sua madrinha, meia dúzia de amigos e os livros que você passaria o resto da vida lendo. uma prateleira só onde estaria tudo pelo que você vive.
coisas pelas quais você reúne um amor irracional do qual não espera retorno nenhum. e pelas quais você continuará loucamente apaixonada até seu último suspiro.
Ufa!, parafraseando a Vírgula querida.
*e por favor não vire uma intelectual chata de óculos quadrados e pretos bebendo demais em algum café em Paris. isso é clichê demais pra você.
terça-feira, 28 de abril de 2009
O encontro de Fernando Lugo e o Porco Mexicano

Porco: Arriba, arriba! Como vão as coisas aí embaixo?
Lugo: Bién, o Paraguai fez um acordo para...
Porco: Estou falando das suas calças, mal parido. Você tem mantido seu compañero onde ele deveria estar?
Lugo: Agora tenho...só não mantive quando fui Bispo. E mal parido não sou eu... são os bastardos.
Porco: Ustedes da América do Sul estão sempre acabando com a moral e os bons costumes.
Lugo: Pior você, que acaba com a saúde dos outros!
Porco: É terrível ser apontado como culpado pela desgraça alheia...
Lugo: Eu sei...tudo o que fiz foi dar um pouco de prazer a algumas pagãs e agora todos me culpam.

Porco: E o pior é ver a coisa se alastrando...em efeito dominó. Cada vez mais gente.
Lugo: Eu entendo exatamente o que você quer dizer.
Porco: Mas eu não tenho culpa! Já você, um homem adulto, deveria encarar as consequências dos seus atos.
Lugo: O quê? Você não tem culpa? Seu vírus está dentro do organismo de dezenas de pessoas que...
Porco: Desculpe, dentro do quê?
Lugo: Do organismo. Das pessoas.
Porco: Ah, achei que você estava falando do meu desempenho sexual. De repente, pensei em Aids, sífilis, gonorreia.
Lugo: O quê?
Porco: Ué, todo mundo sabe que meu orgasmo dura 30 minutos. Mas você nem sonha com isso, porque do jeito que seu dna anda espalhado por aí, o seu não deve durar nem 30 milésimos de segundo.
Lugo: Seu porco safado!
Porco: Isso foi um xingamento? Volta pra zona franca, cara.
Lugo: É pra lá mesmo que eu vou. Meu assessor tá me bipando.
Porco: Assessor, né? Sei.
sábado, 11 de abril de 2009
O cravo e a rosa

Minha faceta chocólatra-romântica-depressiva dando as caras com a TPM:
Ela era enérgica demais, ansiosa demais, perfeccionista demais. Achava que o trabalho era sua vida, e acreditava que a felicidade era não dever nada a ninguém, por mais suor e sacrifício que isso lhe exigisse ao longo dos anos.
Ele não estava muito preocupado com essas coisas, que considerava pequenas demais. Entendia que a grandeza da vida era muito melhor encarada quando não existissem preocupações no caminho, ou quando não se criassem preocupações.
Ela perdia a paciência muito rápido, pecava por arrogância, chorava, demonstrava toda a insegurança que havia dentro de si e no dia seguinte fingia que nada acontecera. Transitava por todas as emoções que podia ter em questão de minutos.
Ele, pai da estabilidade, apenas a acalmava, e não queria que ela soubesse, mas achava essa sua loucura adorável.
Ela pensava em letras; ele, em paisagens.
Ela queria o mundo; ele, uma casa.
E no final, os espinhos dela acabaram por afastá-lo, como faziam com todos que ousassem amá-la.
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